Text: As semelhantes aventuras de Max e Pi | LUCILA VILELA

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max-e-os-felinosCom o filme Life of Pi (As Aventuras de Pi), lançado em 2012, Ang Lee ganhou o Oscar de melhor diretor. O filme levou também a estatueta de melhor Trilha Original, Efeitos Sonoros e Fotografia. Life of Pi conta a história de um adolescente indiano que viaja rumo ao Canadá junto com a família e animais que pertenciam ao zoológico de seu pai. Mas uma grande tempestade provoca um naufrágio no navio e o personagem consegue sobreviver com um bote salva-vidas. No entanto tem que dividir seu espaço com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre, ficando a maior parte do tempo, à deriva com o tigre. O filme foi baseado no livro de mesmo nome, do escritor canadense Yann Martel que recebeu o renomado prêmio Booker Prize, em 2002. Mas desde essa época veio à tona uma polêmica levantada pelo jornal inglês The Guardian em que o livro de Yann Martel teria copiado a trama de Max e os Felinos, do escritor brasileiro Moacyr Scliar, publicado em 1981 e traduzido para a língua inglesa em 1990.

Max e os Felinos conta a história de um menino que foge da Alemanha nazista rumo ao Brasil, mas após um naufrágio fica preso em um bote com a presença de um jaguar. As duas histórias, de fato, são bem parecidas e por esse motivo Yann Martel foi seriamente acusado de plágio. Apesar de possuírem diferentes abordagens – a do brasileiro mais política e a do canadense mais espiritual – apresentam o mesmo enredo. O texto é diferente, mas a idéia é a mesma. E foi a partir de depoimentos, entrevistas e matérias publicadas em jornais, sites e revistas que a questão do que caracteriza um plágio foi levantada. life-of-pi-book-coverYann Martel ao ser indagado sobre o tema admitiu que havia lido uma resenha sobre o livro Max e os Felinos, de Moacyr Scliar, e isso deu o impulso para que ele escrevesse Life of Pi. No entanto, Martel parece não ter tido muito cuidado com as palavras pronunciadas nas primeiras entrevistas, chegando a afirmar que nunca leu o livro de Scliar e que achava que era uma boa idéia estragada por um autor menor. Depois de gerar repúdio com sua atitude, o autor tentou se explicar e consertar em outras entrevistas, o que havia dito. Mas era tarde, apesar da qualidade de ambos os livros, foi a diferença de postura que marcou a disparidade entre os dois autores.

Após a visibilidade e as polêmicas que precederam o fato, os dois livros receberam em suas próximas edições uma nota do autor. Max e os Felinos foi re-editado com uma introdução de Moacyr Scliar onde comentou, em cerca de dez páginas, sobre a situação e sua postura em relação ao ocorrido. Já Yann Martel acrescentou no meio de seus agradecimentos apenas a frase: "A centelha de vida devo ao Sr. Moacyr Scliar." Reconhecendo a faísca que deu inicio ao livro, o autor de Life of Pi agradece timidamente e procura encerrar o assunto. Scliar em sua nota esclarece: “Se a gente chama de plágio a apropriação de um texto alheio que é usado ipsis litteris então a resposta é negativa: não, Yann Martel não plagiou “Max e os Felinos”, mas ele usou a idéia do livro, com um enfoque diferente.” O autor que recusou a intenção de processo que lhe foi sugerida, afirmou que não era uma pessoa litigante e que o livro de Martel era muito bom. O que mesmo estava em jogo, portanto, era a questão dos direitos autorais frente ao temido poder judiciário. No entanto, se o uso da cópia é assumido reconhecendo a autoria, a migração de idéias pode ser compreendida e aceitada naturalmente. Talvez o receio seja sempre a reação do outro: a compreensão do tema dá margem a muita discussão e pode tropeçar em temperamentos explosivos e conceitos passados. Diferenças sutis entre copia, plágio, apropriação, influencias, são questionáveis e as reações, imprevisíveis.

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Se por um lado existe a questão do plágio, ou, do que pode ser considerado um plágio, por outro existe a sutileza de como lidar com isso. De fato, a cópia faz parte de muitos processos de criação. Sobre o fato Moacyr Scliar comenta: “Nada se cria, tudo se copia, é um dito frequente nos meios acadêmicos. Escrevendo a respeito do incidente (prefiro este termo), Luis Fernando Veríssimo observou que Shakespeare baseou numerosas obras em trabalhos de contemporâneos menores. Em realidade, não há escritor que não seja influenciado por outros.” Neste caso, parece que a polêmica acabou evidenciando a postura diferenciada dos dois autores em relação ao tema, extensamente discutível nos dias atuais: a omissão inicial de Martel refletiu o medo através da negação de sua influência e o posicionamento de Scliar refletiu um pensamento maior. Afinal, ele reconheceu o valor do livro de Martel e relevou uma possível disputa judiciária.

Moacyr Scliar faleceu em fevereiro de 2011, cerca de um ano antes da estréia do filme Life of Pi, de Ang Lee.  E acredito que, hoje, o autor, provavelmente, agradeceria a Yann Martel por haver copiado sua idéia, pois de outro modo não haveria filme. Ang Lee soube transpor em imagens impactantes os episódios da trama retratando a beleza e a imensidão da natureza assim como o confronto humano diante da morte e da solidão. A idéia de Moacyr Scliar –essa centelha de vida- caminhou sozinha e resultou em três grandes obras. À deriva nas folhas de um jornal, foi capturada e apresentada ao mundo. Saber conduzir esse trajeto sem cair nas garras da brutalidade faz parte do aprendizado. Max e Pi sobreviveram em estado de alerta e tal atitude serviu para enfrentar o perigo do outro, sempre à sua frente rugindo como uma fera.

 

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